Eu versejo por todos os tempos e templos, por todas as épocas, tal qual um vampiro reinventando sua imortalidade... quero beber-te vermelho e tornar-te imortal... Boa Morte!

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Back to Black

Quedada, lânguida, sôfrega e tresloucada cantarolando o último jingle do que seria a Amy Winehouse da época dos canaviais, a Sinhazinha borda tediosamente mais uma musselina no alpendre do paço da casa grande.
De súbito, passado vulto pela escadaria, se utilizando da destreza disfarçada que lhe é peculiar, adentra por entre as colunas do avarandado o escravo: aquele do qual ela exige fortuita e intensamente, desde seus doze anos, a prontidão no exercício de serviços somente realizados no silêncio do breu da noite, já que o desempenho afobado do marido, por mais ofensivo e esforçado, só a fazia bocejar.
Ela espicha seus olhos felinos por entre as mechas louras do sedoso cabelo zelosamente escovado pela mucama, mulher do criado que caminha em sua direção: pisada certa, odor de mata, tronco riste, tez quente, membros prontos, lábios mornos e olhar castamente erótico trazendo-lhe um envelope carmim. Uma carta; informa-se em seguida.
Qual não é sua surpresa ao sabê-la do ultimo caixeiro viajante que por ali passara - O Libanês, que em idos pretéritos fizera sua felicidade nos canaviais da fazenda e se fora lhe deixando saudosa. Um turbilhão de emoções povoam sua libido abandonada... Ao retomar-se acompanhada, fecha brusco o envelope a fim de poder saborear-lhe o conteúdo oportunamente, e então, já que na presença do empregado, disfarça o rubor e retoma sua brejeirice hipócrita, teatralmente arquitetada por anos.
Já mansa, roçando suas rendas no calhamaço do escravo, ela se levanta avaliando cada centímetro da máquina prostrada à sua frente lhe ofertando mais que um serviço: uma devoção, guarda a encomenda com uma das mãos e com a outra, contundente, leva às nádegas rígidas do Preto uma vigorosa palmada, recebida com o sorriso e obediência de quem lhe possui comissiva em suspiros e arroubos de luxúria e soberba. Agora o olhar felino é dele que num meneio de cabeça lança-lhe a certeza da posse noturna na sua senzala. Se retira silente, acabrunhado e veementemente excitado, sentindo rijo o negrume daquela MISCIGENAÇAO
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Um comentário:

Juliana disse...

Amigo, eu fico aqui bestificada com tamanha sensibilidade, imaginação, sabedoria... Aff! Mto orgulho de vc.
Ah! Detalhe: adooooro essa miscigenação! Vc bem sabe disso! he he he
Beeeeeeeijo.